Lucas Peralles revela: GLP-1 pode ajudar, mas mudanças de hábito são essenciais para o sucesso

Diego Velázquez Por Diego Velázquez
Lucas Peralles

Os medicamentos à base de agonistas do GLP-1, como Ozempic e Wegovy, transformaram a forma como o emagrecimento passou a ser discutido nos últimos anos. Muito além da perda de peso, milhares de pacientes passaram a relatar uma experiência até então incomum: a redução dos pensamentos constantes sobre comida, fenômeno conhecido pela ciência como ruído alimentar. Pela primeira vez, muitas pessoas descrevem a sensação de conseguir fazer escolhas alimentares sem a presença contínua da vontade de comer.

Entretanto, essa mudança levanta uma questão que vai além da ação do medicamento. Se o apetite diminui e a relação com a comida parece mais tranquila durante o tratamento, por que tantos pacientes enfrentam dificuldades para manter os resultados após interromper o uso? Para o nutricionista esportivo Lucas Peralles, fundador do Método LP e responsável pela Clínica Peralles, a resposta está na diferença entre reduzir um sintoma e promover uma mudança comportamental duradoura. É justamente nesse ponto que o acompanhamento nutricional se torna decisivo.

O que realmente muda no cérebro durante o uso dos medicamentos GLP-1?

Os agonistas do GLP-1 atuam em mecanismos relacionados à saciedade e ao sistema de recompensa do cérebro, diminuindo não apenas a fome fisiológica, mas também a frequência com que pensamentos sobre comida ocupam a atenção do indivíduo. Na prática, muitos pacientes descrevem uma sensação inédita de tranquilidade diante da alimentação, como se o impulso constante para comer deixasse de conduzir suas decisões ao longo do dia.

Esse fenômeno, conhecido como ruído alimentar, tem sido amplamente investigado pela comunidade científica. Estudos apresentados no Congresso Europeu sobre Obesidade demonstraram que pacientes tratados com medicamentos dessa classe apresentaram redução significativa desses pensamentos recorrentes, especialmente quando o tratamento farmacológico foi associado a intervenções voltadas ao comportamento alimentar.

Outro aspecto que vem despertando o interesse dos pesquisadores é a alteração da percepção sensorial dos alimentos. Evidências recentes sugerem que o sabor, a recompensa emocional e até o prazer associado à alimentação podem sofrer modificações durante o tratamento, contribuindo para que a experiência de comer deixe de ser guiada predominantemente pelo impulso.

Segundo Lucas Peralles, essa combinação de fatores oferece uma oportunidade valiosa para o paciente reaprender a se relacionar com a alimentação. Quando o cérebro deixa de ser constantemente estimulado por desejos alimentares, torna-se mais fácil desenvolver habilidades que antes eram frequentemente interrompidas pela compulsão ou pela fome não fisiológica.

Por que o medicamento não substitui a mudança de hábitos?

Embora os medicamentos GLP-1 representem um avanço importante no tratamento da obesidade, sua atuação possui limites bem definidos. Eles reduzem o apetite, favorecem a saciedade e diminuem o ruído alimentar, mas não ensinam o paciente a organizar refeições, interpretar corretamente os sinais de fome e saciedade, lidar com gatilhos emocionais ou construir uma rotina alimentar sustentável.

Essa percepção é reforçada por um documento de consenso publicado em 2025 por quatro importantes sociedades médicas norte-americanas dedicadas ao estudo da obesidade e da nutrição. O documento destaca que uma parcela significativa dos pacientes em uso desses medicamentos ainda não recebe acompanhamento nutricional adequado, apesar das evidências demonstrarem que a combinação entre tratamento farmacológico e intervenção comportamental produz resultados mais consistentes.

Lucas Peralles
Lucas Peralles

Lucas Peralles informa que esse cuidado torna-se ainda mais importante porque a redução espontânea da ingestão alimentar pode comprometer a qualidade da alimentação quando não existe orientação profissional. A diminuição do consumo de proteínas, associada à ausência de treinamento de força, favorece a perda de massa muscular durante o emagrecimento, comprometendo tanto a saúde metabólica quanto a composição corporal.

É justamente para evitar esse cenário que o acompanhamento desenvolvido na Clínica Peralles busca ir além da prescrição alimentar. O Método LP utiliza esse período de menor interferência do ruído alimentar para fortalecer a autonomia do paciente, preservar a massa magra e desenvolver hábitos que permaneçam sólidos independentemente da continuidade da medicação.

O que acontece quando o tratamento chega ao fim?

Uma das maiores preocupações relacionadas ao uso dos agonistas do GLP-1 não está no período em que a medicação é utilizada, mas no momento em que ela deixa de fazer parte da rotina. Sem a ação farmacológica, é comum que o apetite e os pensamentos recorrentes sobre comida retornem gradualmente. Quando nenhuma mudança de comportamento foi construída durante esse intervalo, o risco de recuperar o peso perdido aumenta de forma significativa.

Diversos relatos reunidos em pesquisas recentes mostram que muitos pacientes descrevem o tratamento como a primeira experiência de viver sem a constante negociação mental em torno da comida. Entretanto, essa percepção tende a ser transitória quando não existe um processo paralelo de aprendizado capaz de sustentar novas escolhas alimentares.

Para Lucas Peralles, o verdadeiro potencial desses medicamentos está justamente na oportunidade que oferecem para consolidar comportamentos saudáveis enquanto o cérebro se encontra menos exposto aos impulsos relacionados à alimentação. Em vez de enxergar a medicação como protagonista do processo, o Método LP propõe utilizá-la como uma ferramenta que favorece a construção de competências capazes de acompanhar o paciente por toda a vida.

Como unir ciência, medicação e autonomia alimentar?

Os avanços proporcionados pelos medicamentos GLP-1 representam uma das transformações mais importantes no tratamento da obesidade nas últimas décadas. No entanto, compreender seu funcionamento significa reconhecer que eles atuam como facilitadores de um processo muito mais amplo, e não como uma solução definitiva para os desafios relacionados ao comportamento alimentar.

Lucas Peralles defende que a combinação entre ciência, acompanhamento nutricional e mudança de hábitos produz resultados mais consistentes do que qualquer intervenção isolada. Na Clínica Peralles, o foco não está apenas em potencializar o emagrecimento durante o uso da medicação, mas em preparar o paciente para manter sua evolução quando ela deixar de ser necessária.

Essa perspectiva reflete os princípios que sustentam o Método LP. Mais do que promover a perda de peso, o objetivo é desenvolver autonomia alimentar, preservar a saúde metabólica, favorecer a recomposição corporal e construir uma relação equilibrada com a comida. Afinal, o maior indicador de sucesso não é o que acontece enquanto o medicamento está em uso, mas a capacidade de sustentar os resultados quando a mudança passa a depender das escolhas feitas diariamente.

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