Quem ouve falar de agropecuária no sul do Pará costuma associar a região apenas a pasto e desmatamento. Na análise de Alfredo Moreira Filho, fundador e management do Grupo Valore+, essa leitura rápida esconde uma realidade mais complexa, em que ocupação do território, produção de alimentos, logística e preservação ambiental se cruzam de maneira nem sempre simples.
A ideia de que fronteira agropecuária e floresta em pé não convivem tem origem em processos históricos reais. A ocupação do interior da Amazônia muitas vezes se deu por abertura de estradas, venda de lotes e derrubada rápida da mata para garantir a posse da terra. Daí nasceu a imagem de que avançar a produção significa recuar a floresta. O problema é que a imagem, ao ser aplicada a toda a região e a todos os produtores, apaga diferenças importantes entre quem derruba para especular e quem busca produzir de forma continuada sobre áreas já abertas.
O que é a fronteira agropecuária e por que ela avança?
Fronteira agropecuária é a faixa do território onde a atividade agrícola e pecuária ainda está se instalando, geralmente em áreas distantes dos grandes centros, com infraestrutura incompleta e terra mais barata. O avanço depende de fatores bem concretos: preço da terra, acesso por estradas, presença de frigoríficos e armazéns, crédito disponível e expectativa de renda. Quando esses elementos se alinham, a ocupação se acelera, e quando faltam, a atividade estaciona ou migra para outro ponto.
No sul do Pará, a combinação de terras extensas, solos relativamente favoráveis em alguns trechos e migração de famílias vindas de outras regiões impulsionou esse movimento por décadas. Mas ocupar não é o mesmo que produzir bem. Em áreas de pecuária extensiva, por exemplo, o pasto é formado com pouca correção de solo e baixa lotação de animais por hectare, de modo que a terra se esgota e o produtor tende a abrir novas áreas. A causa do avanço, portanto, está menos na necessidade de espaço e mais no modo de uso da terra já aberta.
A distinção importa porque muda o diagnóstico. Se o problema fosse falta de área, a solução seria limitar a produção. Como o problema é, em boa parte, baixa produtividade de áreas já abertas, a resposta passa por recuperar pastagens degradadas, manejar o solo com técnica e organizar a gestão da propriedade. Será que um mesmo hectare, bem trabalhado, não poderia render o que hoje exige três?
Desenvolvimento e floresta em pé podem andar juntos?
A resposta curta é que podem, mas não por acaso e não sem custo. Conforme explica Alfredo Moreira Filho, o crescimento sustentável de qualquer atividade depende de planejamento e de controle do próprio negócio, e a propriedade rural não foge dessa lógica. Um produtor que conhece seus custos, sabe quanto cada área rende e decide com base em números tem menos motivo para ampliar a lavoura ou o pasto só por impulso.
Na prática, isso se traduz em medidas conhecidas do setor. Em propriedades que adotam manejo mais intensivo, a rotação de pastagens, a correção da acidez do solo e a adubação de manutenção permitem criar mais animais na mesma área. Em lavouras, o plantio direto, que mantém a palha do cultivo anterior sobre o solo, reduz a erosão e conserva a umidade, o que importa muito em regiões de chuva concentrada e calor intenso. Nenhuma dessas técnicas é novidade, mas todas exigem assistência técnica e capital de giro, dois gargalos comuns no interior.
Há ainda o fator do tempo. Recuperar uma pastagem degradada leva safras, e o produtor com pouca margem financeira dificilmente espera. Por isso, crédito com prazo adequado e acompanhamento técnico fazem diferença maior do que discursos sobre conscientização. Quando o dinheiro chega só para abrir área nova, é isso que acontece; quando chega para recuperar, o resultado muda de direção.
Infraestrutura e mercado: o que pesa na decisão de abrir área?
Outro mito é o de que a expansão acontece apenas porque o produtor quer. Na avaliação de Alfredo Moreira Filho, engenheiro agrônomo, a decisão de produzir em regiões de fronteira também responde ao que o mercado oferece: se existe frigorífico próximo, se a estrada chega até a propriedade em qualquer época do ano e se o preço compensa o custo de transportar a produção. Sem escoamento, não há renda, e sem renda a pressão sobre a floresta tende a crescer, porque a abertura de área passa a ser a forma mais barata de mostrar posse e de garantir algum retorno.
A logística, portanto, é parte do debate ambiental, ainda que raramente apareça nele. Estradas vicinais em mau estado encarecem o frete e fazem o produtor vender mais barato ou desistir de culturas perecíveis. Já a presença de armazéns, cooperativas e pontos de compra organiza a oferta e permite planejar o que plantar. Em regiões onde esses elementos faltam, o gado acaba sendo a escolha mais comum justamente porque anda sobre as próprias pernas até o comprador.
Nada disso significa que a fronteira esteja livre de problemas. A grilagem, que é a apropriação ilegal de terras públicas, o desmatamento ilegal e os conflitos por terra existem e merecem enfrentamento firme, com fiscalização e regularização fundiária. O ponto é que tratar a região inteira como um bloco só impede de ver onde as soluções funcionam. Distinguir o produtor que ocupa de forma irregular daquele que regulariza, investe em solo e adota técnica é o primeiro passo para políticas e decisões privadas que realmente reduzam a pressão sobre a mata.
O que a fronteira ensina sobre produzir com responsabilidade?
O avanço da agropecuária no sul do Pará não é um destino fixo. Ele depende de escolhas: usar melhor a terra já aberta, estruturar a logística, ampliar a assistência técnica e dar segurança jurídica a quem produz dentro da lei. Como observa Alfredo Moreira Filho, as decisões de longo prazo costumam ser as mais difíceis, porque exigem abrir mão de ganho imediato em favor de uma base sólida, e isso vale tanto para uma empresa quanto para uma propriedade rural.
Um exemplo concreto mostra como a escolha pesa. Em uma fazenda de pecuária com pasto degradado, o dono pode abrir mais mata para ganhar área ou investir em correção do solo, divisão de piquetes e manejo do rebanho para produzir mais no que já está aberto. A primeira saída parece mais rápida, mas depende de licenças, fiscalização e de uma terra que perde fertilidade em poucos anos. A segunda exige capital e paciência, e é ela que tende a sustentar a propriedade ao longo do tempo sem ampliar a pressão sobre a floresta vizinha.
